Pela primeira vez na história, as fontes renováveis — solar, eólica, hidrelétrica e biomassa — superaram os combustíveis fósseis na geração elétrica global durante um período de 30 dias consecutivos, segundo dados divulgados pela Agência Internacional de Energia (AIE). O feito, registrado em maio de 2023, é considerado um ponto de inflexão na transição energética mundial.
O relatório da AIE aponta que a capacidade instalada de energia solar fotovoltaica cresceu 380 gigawatts em 2022 — mais do que qualquer outra fonte energética na história —, e que o custo médio de geração solar caiu 89% na última década, tornando-a a fonte mais barata de eletricidade já produzida pela humanidade em grande parte do mundo.
O papel da China e da Europa
A China responde sozinha por quase 40% da nova capacidade renovável instalada globalmente. O país, que ainda é o maior emissor de CO₂ do mundo, paradoxalmente lidera os investimentos em energia limpa — uma consequência de sua estratégia industrial de dominar a cadeia de valor de painéis solares e baterias.
"A transição energética deixou de ser uma questão de vontade política para se tornar uma questão de lógica econômica. Renováveis são simplesmente mais baratas, e o mercado está respondendo."
— Fatih Birol, Diretor-Executivo da AIE
Na Europa, a crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia em 2022 paradoxalmente acelerou a adoção de renováveis: países que dependiam do gás russo aceleraram projetos de eólica offshore e solar para reduzir a dependência de importações. A Alemanha, por exemplo, gerou mais de 60% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis no primeiro trimestre de 2023.
O Brasil no contexto global
O Brasil ocupa posição privilegiada nessa transição. Com uma matriz elétrica já composta por mais de 83% de fontes renováveis — hidrelétrica, eólica e solar —, o país tem potencial para se tornar um dos maiores exportadores de energia limpa do mundo, seja diretamente por meio de cabos submarinos, seja indiretamente via hidrogênio verde.
O Nordeste brasileiro já é considerado uma das regiões com maior potencial solar e eólico do planeta. Estados como Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia atraíram nos últimos anos investimentos superiores a R$ 80 bilhões em infraestrutura de energia renovável, gerando mais de 120 mil empregos diretos na região.
Desafios que persistem
O entusiasmo com os recordes de renováveis não pode obscurecer os desafios que persistem: o armazenamento de energia em baterias ainda é insuficiente para garantir fornecimento estável em períodos sem sol ou vento, a transição justa para trabalhadores de indústrias fósseis precisa ser gerenciada, e a demanda global por energia cresce mais rápido do que a adição de capacidade renovável em alguns países emergentes.