O mercado global de plásticos biodegradáveis deve atingir US$ 29 bilhões até 2027, impulsionado por regulações ambientais mais rígidas, pressão de consumidores e a busca da indústria por alternativas às embalagens convencionais. Mas por trás das promessas de sustentabilidade, cientistas e especialistas ambientais alertam para um cenário mais complexo — e em alguns casos, preocupante.

A questão começa na própria definição: "biodegradável" não significa necessariamente "ambientalmente seguro". Existem diferentes categorias de plásticos alternativos com propriedades radicalmente distintas, e a confusão entre elas está gerando o que especialistas chamam de "greenwashing estrutural" na indústria de embalagens.

Entendendo as diferenças

Os principais tipos de plásticos biodegradáveis no mercado incluem os bioplásticos — feitos de fontes renováveis como milho, cana-de-açúcar e celulose —, os plásticos oxo-degradáveis — convencionais com aditivos que aceleram sua fragmentação — e os compostáveis certificados, que se degradam em condições industriais específicas.

Potenciais vantagens

  • Redução da dependência do petróleo
  • Menor pegada de carbono (em alguns casos)
  • Compostagem industrial viável
  • Inovação em embalagens funcionais

Problemas identificados

  • Degradam-se apenas em condições específicas
  • Contaminam o sistema de reciclagem convencional
  • Uso intensivo de terra e água na produção
  • Oxo-degradáveis geram microplásticos

"Um plástico 'compostável' que vai para o aterro ou para o oceano não se comporta de forma diferente do plástico convencional. O rótulo não transforma o destino do material."

— Dr. Roland Geyer, pesquisador de resíduos plásticos da UC Santa Barbara

Os plásticos oxo-degradáveis são especialmente problemáticos: ao se fragmentarem sob ação da luz solar e do calor, não desaparecem — tornam-se microplásticos que penetram nos solos, nos oceanos e na cadeia alimentar. A União Europeia proibiu sua comercialização em 2021, mas eles ainda são amplamente usados em outros mercados, inclusive no Brasil.

O problema da infraestrutura

Mesmo os plásticos genuinamente compostáveis apresentam um desafio crítico: eles só se degradam adequadamente em composteiras industriais que operam a temperaturas entre 55°C e 70°C. No Brasil, apenas 0,4% dos municípios possuem infraestrutura de compostagem industrial, o que significa que a grande maioria dos plásticos "compostáveis" termina em aterros ou lixões, onde se comportam como plástico comum.

Além disso, quando misturados ao fluxo de reciclagem convencional, contaminam o processo e reduzem a qualidade do material reciclado. As cooperativas de catadores, que dependem da qualidade do material coletado para sua subsistência, relatam prejuízos crescentes com a confusão gerada pelos rótulos de biodegradabilidade.

O que realmente funciona

Especialistas convergem para a mesma conclusão: não existe substituto eficaz para a redução do uso de plástico desde a origem. Sistemas de embalagens reutilizáveis, refil e reuso já demonstraram reduções de impacto ambiental muito superiores às obtidas pela substituição por bioplásticos. A regulação europeia de embalagens, aprovada em 2024, prioriza exatamente essa hierarquia: primeiro reduzir, depois reutilizar, só então reciclar ou compostar.

No Brasil, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece metas de redução de resíduos plásticos mas ainda carece de instrumentos econômicos — como taxação de embalagens de uso único — para tornar a mudança de comportamento competitiva em relação ao modelo descartável atual.